Os Bilhetinhos do Século XXI

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janeiro
16
Conhecer os convidados

Por Sofia Tenreiro

“Tens um sorriso muito giro.” Dependendo da geração a que pertencemos, esta mensagem pode ter sido enviada através de um bilhete entregue em mão por um(a) amigo(a) comum, através de uma mensagem escrita numa árvore ou difundida numa rede social ou através de um email. Quantos de nós não enviaram mensagens na juventude? Há 20 anos, quando queríamos mostrar a alguém que estávamos interessados, enviávamos um papelinho com um recado através dos nossos melhores amigos. Hoje, enviamos uma mensagem de texto ou de vídeo através de um email ou de uma rede social.

As relações humanas mudaram muito com a tecnologia. Esta permitiu encurtar distâncias, reforçar relações, manter juntas famílias distantes, aproximar pessoas improváveis de se conhecerem. A tecnologia ajudou também a ultrapassar outro tipo de barreiras como a timidez ou complexos e deu “coragem” a pessoas que, de outra forma, não ousariam conhecer ou abordar outros.

A tecnologia é muito importante e tem inúmeros benefícios. Porém, nunca podemos esquecer-nos de que deve estar ao serviço das pessoas e deve sempre colocar as pessoas no centro. Deve, por isso, complementar e não ser um substituto das relações não virtuais.

LOL (rir virtualmente) não é o mesmo que assistir a um riso real. O riso presencial implica uma linguagem corporal, implica o ruído do riso, implica uma relação pessoal muito rica com reações imediatas e interações consequentes e que inclui muitos elementos que se perdem no mundo virtual. Porém, no caso de distâncias, por exemplo, o LOL virtual é a única forma de manter e enriquecer a relação e de conseguir que a “chama continue acesa”.

Por outro lado, é muito mais fácil confrontar, dar más notícias, expressar opiniões divergentes, atacar, sem olhar nos olhos. Há pessoas que dizem virtualmente o que jamais teriam coragem de dizer pessoalmente, olhos nos olhos, porque sabem que estão “protegidas” de uma reação emocional que receberiam se estivessem presentes, em frente à outra pessoa.

Na nossa vida, devemos sempre assumir a responsabilidade de usar o melhor meio de comunicação, pessoal ou virtual, em cada momento, de acordo com a pessoa com quem interagimos, com o tipo de mensagem, com a situação. Devemos ter mais focus no outro e colocar-nos na sua posição, pensando em qual seria o formato que gostaríamos que usassem se fôssemos a outra pessoa. Esta consciência pelo outro, que muitas vezes se perdeu num mundo onde vivemos a uma velocidade estonteante, onde tudo é rápido e efémero, tem de estar cada vez mais presente nas nossas vidas, para podermos contribuir para uma sociedade melhor, com mais valores, mais feliz e onde as pessoas não se sintam isoladas apesar de estarem sempre “ligadas”.

Por isso, é importante criarmos as nossas próprias regras de etiqueta, que nos ajudam a aproveitar os enormes benefícios da internet, das redes sociais, do mundo virtual, para complementar e enriquecer as nossas relações pessoais.

E é fundamental, como adultos, ajudarmos os mais jovens a perceberem o impacto que estas suas ações podem ter. Infelizmente, assistimos a uma “virtualização” e consequente “banalização” de fenómenos como o bullying, que ao serem virtualizados são mais fáceis de executar e permitem impactar mais pessoas. A nossa consciencialização deve influenciar positivamente os mais jovens acerca dos benefícios destas regras de etiqueta, dos benefícios de pensar no impacto que temos nos outros e na riqueza da complementaridade dos mundos real e virtual.

A tecnologia pode criar muitas novas relações e enriquecer muito as existentes, mas é importante continuarmos a enviar bilhetes e mensagens em papel e a dar abraços reais para mantermos vivas as relações virtuais e para as solidificarmos numa era acelerada e com tanto ruído e tantos estímulos.



Sofia Tenreiro é a General Manager da Cisco Portugal.